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PARASHÁ MIKÊTS – Árvore da Vida ou Árvore da Morte?

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“E disse: quão felizes são aqueles que trabalham na Torá e assim, aprendem a ver com os olhos da sabedoria. Tudo o que D-us formou no mundo, tem seu próprio grau de controle, que dirige para o bem ou para o mal. Existem graus para a direita e graus para a esquerda. Se um homem ruma para a direita, qualquer ato que realiza, se volta um grau diretor neste lado, que o ajuda e faz com que os outros o ajudem. Porém, se ruma para a esquerda, qualquer ato que realiza, se volta uma força diretora neste lado, que traz decretos ruins contra ele” (Zohar Mikêts).

Esta Parashá, nos mostra efetivamente a magistral realização de Yossef e sua interpretação profunda sobre o sonho do faraó, algo que nenhum feiticeiro do mundo conseguiu resolver naquela época. Isto ele conseguiu, porque estava inclinado à sabedoria da Torá, não aquela que estudamos em nossas casas, também chamada de Chumash (Pentateuco), mas sua parte profunda, na época de Yossef, somente oral, a qual hoje chamamos Cabalá. Isto, porque conforme nos confirma o Tanya, a Torá nos coloca em contato direto com o intelecto divino, o que faz o ser humano compartilhar, em parte, os “pensamentos do Criador”.

Ao fundir sua mente, corpo e alma com D-us e causar um Yichud (unificação), Yossef escapa de quaisquer distrações e eleva sua consciência diretamente ao plano das certezas, cuja origem é D-us. Seus concorrentes tinham poder, mas um poder mais vinculado ao que é terreno, então suas percepções eram distraídas pelas coisas do mundo, incapazes de transpassar a realidade de Assiá (Mundo Físico). Estes planos que estamos discutindo são extremamente místicos e fazem parte do propósito de cada um, pois cabe a cada ser humano saber o que busca ao final, se é o finito ou o infinito.

Estas dimensões ficam bem claras na análise do Zohar, sobre esta Parashá, já que o “grau da direita” é a Etz Chaim (Árvore da Vida), enquanto que o “grau da esquerda” é a Etz Mavet (Árvore da Morte). Yossef, ao ser vendido pelos irmãos e ter a mazal (destino) que teve, estava cumprindo um Tikkun, que lhe apresentaria chances de reparação, ou, dependendo das escolhas de piorar sua situação na existência. Quando caminhou à esquerda, atraiu para ele situações ruins, principalmente no episódio em que confia sua salvação à um copeiro do faraó e não em D-us. Por outro lado, todas as vezes que depositou 100% de sua confiança no Eterno e não nos homens, isto significou uma guinada à direita, o que lhe trazia ajuda e sucesso.

Seus opositores, como a esposa de Potifar (que foi responsável pela prisão de Yossef), estavam totalmente inclinados à esquerda, o que quer dizer que seus valores eram meramente finitos. Por isso eram regidos pelo ódio, e como o Talmud nos conta, “ódio é similar a idolatria”, pois a pessoa passa a ignorar o plano divino. Além disso, perderam a guerra interna que cada ser humano vive, sendo superados por sua Nefesh Habahamit (Alma Animal). Os cabalistas nos ensinam que só há um remédio, contra este mal e chama-se Torá, por isso o Criador a entregou à toda a humanidade, conferindo a Israel a missão de transmiti-la às nações.

Quando Yossef eliminou suas dúvidas e “trabalhou na Torá”, trouxe luz não só sobre ele, mas sobre todo o mundo, fazendo com que todos recebessem benefícios. Isto não quer dizer que as oposições contra si fossem eliminadas, afinal ainda existiam pessoas que o odiavam. Mas que ele venceu o pior de todos os inimigos, que é o Yetzer Hará (má inclinação), que é interno. O maior inimigo de uma pessoa é ela mesma, não é à toa que o Talmud nos pergunta e ao mesmo tempo responde: “Quem é forte?  É aquele que vence suas más inclinações” (Talmud Bavli).

Shabat Shalom!

Rafael Chiconeli

AS MARAVILHAS DO CRIADOR

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D-us é a essência sublime do desejo de compartilhar, proporcionando à todos seu amor ilimitado e tendo em suas criaturas e proporcionar bem a elas, o sentido de sua existência. Muitas vezes não entendemos como certas coisas chegam à nós, pois vislumbramos tudo numa ótica limitada aos cinco sentidos.

A Cabalá e sua vivência nos mostram que é possível transpassar este nível limitado de percepção, para enxergarmos as coisas em sua totalidade. Alcançando prazer e a satisfação que a proximidade com Hashem nos concede. Yossef, conhecido por seu talento cabalístico de interpretar sonhos, dizia: “a solução do enigma se encontra nas mãos de D-us e não na dos homens”.

Isto quer dizer que a sintonia junto à Hashem é que faz as coisas se realizarem. E para que isto aconteça, precisamos buscar a equivalência de forma com ele, significa trocarmos nosso comportamento egoísta, pela doação que é a essência do Criador, logo, o que nos aproxima Dele.

Existe uma história cabalística que fala muito sobre a ordem natural das coisas e como tudo pode funcionar perfeitamente, quando há a sintonia. Certa vez, um padeiro fez um pão tão perfeito, que desejou entregá-lo em oferta ao Criador, então foi correndo á sinagoga. Colocou o pão dentro da arca sagrada e orou fervorosamente, para que o Eterno aceitasse. Ao terminar, foi-se embora.

Alguns minutos depois, um mendigo passava pela sinagoga e estava muito faminto. Sentia que se não comesse, morreria, então entrou no templo, ajoelhou-se e orou profundamente ao Eterno. Ao terminar, abriu a arca e encontrou ali o pão. Era um milagre! Ele chorou de alegria e gratidão e matou sua fome, voltando á rua.

Passando um pouco mais de tempo, o padeiro se perguntava se sua oferta teria sido aceita. Decidiu então voltar á sinagoga e ao abrir a arca sagrada, viu que não havia mais pão ali. Ficou muito feliz e então, decidiu oferecer ao Criador toda semana o melhor pão que pudesse preparar.

Os dias foram se passando, e sempre que o mendigo estava desesperado por comida, ia à sinagoga e orava com muita fé e ao abrir a arca sempre encontrava o pão e agradecia. Do outro lado, o padeiro sempre checava se sua oferta havia sido aceita e agradecia mais ainda, quando a via vazia.

Este fato ocorreu por inúmeros anos sem que os dois sequer se conhecessem. É a beleza de como o Eterno atua em nossas vidas.

Shalom,

Rafael Chiconeli

PS: HOJE MAIS UMA CELEBRAÇÃO DE CHANUKÁ.

CHANUKÁ: LUZ PARA A SUA VIDA

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O Zohar diz: “como a rosa entre os espinhos, assim é minha amada entre as donzelas. Quem é a rosa a que se refere o versículo? É a congregação de Israel” (Zohar – Hakadama 1a).

O versículo aborda de forma bastante esotérica, o estado em que Israel (e aqueles com ele simpatizam) enfrenta neste mundo de Malchut, onde a materialidade e a densidade são mais evidentes do que em qualquer outro Olam (mundo), dentre aqueles originalmente criados após a “quebra” de Adam Kadmon.  Isto quer dizer, que a santidade (rosa) está cercada pelas Klipót (cascas) da Árvore da Morte, as quais já analisamos amplamente nos estudos passados, que publicamos aqui no site. A  conclusão deste fato, com Chanuká (a Festa das Luzes), é que aprendemos como lidar com as situações, que tentam nos afastar da espiritualidade autêntica.

A história de Chanuká  se passa em 3594 (168 AEC), quando a Terra de Israel estava sob o domínio absoluto grego. Eles tentaram subverter tudo o que a Torá significava para o povo, inoculando cada vez mais idolatria e desrespeitando tudo o que era sagrado, conforme havia sido transmitido por D-us. O cume do evento, foi quando Antiochus, o então governante grego ordenou se construíssem imagens de Zeus, às quais o povo seria obrigado a se curvar. Então, vários israelitas se revoltaram, sendo mortos pelos invasores. À partir daí, uma série de milagres se inicia.

Uma família de sacerdotes judeus se levanta contra o exército opressor, ajudada por outros cidadãos corajosos de Israel e vencem seguidas batalhas, fazendo com que os gregos recuem. Quando finalmente venceram a guerra, dirigiram-se ao Templo de Jerusalém, para recomeçarem a cumprir os deveres religiosos, porém o encontraram totalmente profanado. Entre ídolos, alimentos proibidos e itens religiosos quebrados, precisavam acender as velas da Menorá, que anunciar o reinado do Eterno, como D-us único. No entanto, o azeite para o acendimento deve ser puro, e as grande  parte encontrada estava profanada, e foi quando, milagrosamente um punhado pequeno de azeite puro foi encontrado e, ao ser aceso, as velas da Menorá permaneceram iluminadas por Oito Dias.

Desde então, os oito braços da Chanukiá (o nono espaço pertence ao Shamash, que acende as velas), têm sido um símbolo de nossa luta contra a escuridão, pois misticamente, elas fazem conexão entre aquele evento vivido pelos antigos macabeus e por todos os judeus e/ou cabalistas que cultivam esta prática no mês de Kislev. A Cabalá nos ensina que as sete velas da Menorá representam a ordem natural do universo, através dos sete dias que o Criador estabeleceu para a semana. Portanto, o oito, é o transcender da natureza, colocando o ser humano em contato com o sobrenatural, força de onde provém os milagres, concedendo à capacidade de superar o impossível.

  A VELA, A CHAMA E O AZEITE

A vela e a chama estão intimamente ligadas, e na mística da Cabalá têm uma ligação profunda com a alma humana e o seu potencial de elevação. Se analisarmos estes componentes, o toco da vela simboliza o corpo humano, porém as chamas multicoloridas, que se elevam de cores distintas entre o amarelo o azul e o alaranjado simbolizam os níveis da alma, que segundo nossa mística são potencialidades que nós podemos despertar. A própria chama da vela se eleva de uma forma, que parece querer se desprender do toco, que nos conecta com a vontade que a alma nutre de abandonar a esfera da restrição espiritual.

Por outro lado, o azeite é um símbolo profundamente cabalístico, já que a água pode ser vista, representa nesta análise o nível revelado da Torá, que pode ser apreciado por qualquer pessoa. Porém, o óleo quando misturado à água, permanece separado e flutua sobre ela, representando a Cabalá e a elevação de sua sabedoria, que não pode ser compreendido por qualquer pessoa, sendo além do entendimento do profano.

Voltando ao Zohar, a Cabalá nos ensina que embora os espinhos cerquem Israel (sua sabedoria), eles são incapazes de afetá-la verdadeiramente, representam somente desafios para que o mérito de quem se aproxima da “rosa” seja maior. Quando utilizamos este “Portal para a Luz”, que é Chanuká,  rompemos com os espinhos (trevas) que nos impedem da conexão verdadeira e alcançamos realizações incríveis, que são os milagres. Portanto, conecte-se com a Luz e supere os limites ilusórios.

Chag Chanuká Sameach!

Rafael Chiconeli

ONDE A INTERNET NÃO CHEGA

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A internet provocou uma tremenda mudança na dinâmica de nossa vida, onde tudo parece alcançável, fácil como uma clicada no site de buscas do Google. Hoje não há coisa que não possamos alcançar, quando fazemos uma pesquisa para trabalho ou estudo. As compras são feitas via web, a diversão das crianças migrou da televisão para o computador.

Não dá para desprezar o benefício que a internet nos trouxe em termos de difusão de idéias, facilitação do trabalho, fontes para estudo e a bagagem de conhecimento prático que se pode adquirir. Na verdade, um dos grandes fatores em que ela colaborou, foi na obtenção do fator tempo. Lógico, desde que usada com sabedoria.

Se antes faltava alguma coisa, as Mídias Sociais foram o “Coupe de Grace” nas relações homem computador. Elas fazem com que se abra a tela para um portal, que interconecta milhares de vidas, como um mundo alternativo em que podemos ser quem quisermos ser. Mas até onde isso irá nos levar…

Toda pessoa que busca algo num site de pesquisa tem algo em comum. Ela está com uma necessidade que precisa ser preenchida, a sensação de que algo está faltando. O que precisa ser feito pode ter inúmeras origens, mas cada pesquisa começa comum desejo de satisfação.

Por mais que a internet seja capaz de trazer resposta para inúmeras questões, o homem sempre trará novas e mais novas questões, até não ser mais capaz de ser saciado. Porque a internet só lidará eficazmente com questões materiais. Suas dúvidas existenciais também precisam ser respondidas.

É a natureza humana.

A Cabalá, também é uma ferramenta de busca. Porém, diferente do Google, é uma ferramenta de busca espiritual, pois vai nos tirar da existência limitada deste mundo e nos colocar em contato com a realidade ilimitada que cada ser possui à sua frente.

Neste aspecto, a Cabalá é o verdadeiro “link” que nos colocará em contato com as respostas para as dúvidas que nos afligem. O melhor de tudo, é que estas respostas, através desta ferramenta poderosíssima estão dentro de nós. Por isso, a Cabalá é intitulada “Tecnologia da Alma”.

Com Amor,

Rafael Chiconeli

PARASHÁ VAYÊSHEV – A INVEJA E SUA ORIGEM

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“E disse: muitos são efetivamente os adversários com quem o ser humano há de contender desde o dia em que D-us insufla nele uma alma neste mundo. Pois tão certo como emerge a luz do dia, o mal instigador está pronto para se aproximar à ela” (Zohar Vayêshev) .

Esta parashá nos ensina sobre a vida de Yossef, e o quanto era odiado por seus irmãos, em função da preferência que Yacoov , o pai, tinha para com ele, em detrimento deles. A Torá nos mostra que o grande motivo do ressentimento deles, era porque o irmão mais novo era leal ao pai, portanto amava sua companhia e compartilhavam momentos juntos. Yossef então começa a despertar seus dons, de interpretação de sonhos e tem uma profecia, na qual se vê liderando a Casa de Israel, o que determina sua mazal (destino) na mente dos irmãos.

Os nossos sábios interpretam que estes adversários com os quais nós temos que contender, não são físicos. Em verdade, eles estão nas Klipót(cascas), vinculados ao lado maligno que é um estado muito rebaixado da existência, mas da mesma maneira que o justo é capaz de atrair para este mundo a luz divina, o perverso também traz para nossa existência as trevas. O que significa que por equivalência de forma (emoções similares), o maligno consegue um ibum (fusão), com a pessoa e passa a atuar através dela. No que chamamos no CCI de caminhar rumo a “terceirização do livre-arbítrio”.

Isto acontece por uma dinâmica muito mística: o bem representa a “presença de D-us”, enquanto o mal representa a “ocultação do divino”, exatamente porque esta conexão com o Criador atrai a Luz, que nutre todas as coisas e as forças das trevas também tem esta necessidade de nutrição, já que na Sitra Achrá (outro lado), a luz divina que penetra, é somente o suficiente para gerar subsistência e não prazer. A única maneira que a força maligna tem de obter prazer é se vinculando aos seres humanos dos  quais sugam força vital, porém se o “brilho” é intenso demais estas forças são repelidas.

O que podemos entender da seguinte forma: a princípio estas forças tentam agir no justo, porque sua luz é extremamente intensa e sedutora, mas isto acaba por ser impossível, já que a intensidade expulsa o maligno. Então as forças klipóticas atuam no elo fraco, pessoas que possuem a força vital necessária para lhes gerar prazer, mas que não chega a ser tão forte para repelir o mal. Porém, a klipá guarda um ressentimento enorme do justo, por não poder residir nele, então usa as pessoas que estão sobre a sua influência para atacá-lo.

Existe uma história que explica isso: certa vez um homem tinha um bazar pequeno, mas estava muito mal nos negócios. em contrapartida, o seu vizinho tinha um bazar gigantesco, que só prosperava. Então, chateado, este homem falava mal do vizinho para todo mundo, muitas vezes através de mentiras. Mas isto não mudava a sua situação, então decidiu procurar um cabalista. O cabalista disse: “realmente você tem uma situação muito difícil, porque você está administrando dois bazares”. Então respondeu o homem: “você não entendeu, eu só tenho UM pequeno bazar”! Nisto o cabalista finalizou: “então, por que você pensa tanto no bazar do vizinho? Preocupe-se apenas com o seu”.

A inveja está baseada no princípio de querer o que é do outro, porque o invejoso em geral não enxerga o potencial que ele próprio possui em conquistar, porque sua visão está encoberta por estas cascas as quais ele está vinculado, pela maneira ruim como conduz as vestimentas de sua alma: pensamentos, palavras e ações. Por isso, ainda que possa conquistar coisas no campo material, ele está falido espiritualmente, já que estas forças o instigam a sempre contra alguém.

Diz a Torá: “muitas são as adversidades do justo, mas D-us sempre o livra de todas elas” (Tehilim 34:20). Porque como o Zohar nos ensina, que o Criador se deleita com a pessoa que vive em comunhão com Ele, realizando as suas coisas, sem se incomodar com o que os outros estão fazendo, já que o justo fica feliz com a vitória alheia. Justamente era isso que Yossef tinha e seus irmãos não. Analisando friamente, o irmão mais novo passou por todos os empecilhos, ao ser vendido como escravo no Egito, enquanto que seus irmãos que o venderam gozaram da Terra de Israel. No entanto internamente eles sofriam, enquanto que Yossef era feliz, pois estava em Devekut (comunhão) com D-us.

Ao final, da Parashá fica claro quem prosperou de verdade, porque como nos ensina o Rei Salomão: “um pouco de sabedoria, elimina muita ignorância, tal qual a tênue luz de uma vela expulsa muita escuridão”.

Shabat Shalom!

Rafael Chiconeli

O PODER DO AMOR

AMOR

A Cabalá nos ensina que o amor é a força motriz do mundo. Segundo ela, os minerais, animais, plantas e diversos aspectos do universo se interconectam através do amor, remetendo-se diretamente à sua origem, que está no Criador. Afinal D-us é a essência do verdadeiro amor, através de seu ato de criação.

Os sábios cabalistas nos afirmam que nossa existência é uma comunicação entre as raízes e os ramos, o que significa que nós somos uma ramificação de algo que tem uma origem mais elevada. Tudo o que temos aqui é apenas o efeito de uma causa que provém das esferas mais elevadas.

Amar é se elevar, porque não só nos aproxima de D-us, mas faz com que nos elevemos até Ele. Quando você ama, você está acessando um campo que lhe permite sentir em aspecto humano aquilo que emana do Criador. Por isto, a Cabalá acredita que os seres humanos não inventam algo, mas através de uma percepção elevada, conseguem trazer à si coisas das esferas elevadas.

Ou seja, o ser humano não cria o amor, mas adere à ele. Por isso, faz-se uma analogia entre esta força e a água, pela capacidade que este mineral tem de aderência, de trazer e unir outros elementos, além da força de suas correntezas. O Midrash nos conta que “D-us queria uma morada nos mundos inferiores”, ou seja, que apesar de sua elevação ele quer aderir à nós.

Ao mesmo tempo, espera-se que os seres humanos queiram a mesma coisa. O que nos ensina, que quem ama deve “descer” até o ser amado. Isto significa que devemos nos aproximar, para que esta energia possa completar plenamente o “recipiente”.

Aprendemos a partir daí, que amar é não se isolar, é abandonar nossa Torre de Marfim, que é a representação do ego, para que possamos de fato exercer o poder do amor, que tudo aproxima, realiza e faz.

Um dia maravilhoso para Todos!

Shalom,

Rafael Chiconeli

AS CHAVES DA CABALÁ

Há de se saber que para cada empreendimento, há um objetivo final a ser alcançado, caso o contrário, todo o esforço feito não terá valido de nada, transfigurando-se em energia aplicada em vão. Mas sabemos que com o aprendizado e aprofundamento na ciência cabalística, no universo e nos mundos supernos, nada de fato é em vão. Pois ainda que haja um enorme gasto de energia da parte de uma pessoa, isto não evita que forças invisíveis acabem por se utilizar daquele esforço vital, de forma parasitária, conforme aprendemos, através da atuação empregada pelas forças Klipóticas (As Cascas).

Por isto, em Cabala, trabalhamos para com que nossos objetivos sigam de mãos dadas com a “Kavanná” (Intenção Focada), que há de guiar nossos esforços rumo aos nossos objetivos finais. Em última instância, o cabalista que se preza faz com que suas ações sempre o encaminhem para a “Devekut” (Adesão Total ao Criador), mas em nossas vidas existem objetivos menores, que agem como caminho para este objetivo final, que são a glória dos ensinamentos que recebemos das gerações mais remotas, até os dias de hoje.

A Cabala em si, se manifesta de inúmeras formas, mas em seu final, não passam de divisões de um mesmo todo, pois consideramos que tudo provém de uma unidade maior, o que nos faz entender que dualidades ou divisões só se tornam existentes por aqui, enquanto que nos mundos superiores tudo se unifica sob a vontade do Criador. Porém, na nossa esfera de atuação, cada forma de se vivenciar da Cabala, vincula-se à visão de certos mestres, assim como as diversas formas de “Kelim” (recipientes ou vasos), que se referem à capacidade que cada alma têm de reter certo conteúdo de iluminação, conhecimento e percepção.

Então, há a chamada “Cabala Teórica”, que se resume ao estudo da ciência mística, passando por seus grandes mestres, em grande parte de forma especulativa. As práticas se resumem mais a um uso psicológico dos elementos cabalísticos, trazendo um entendimento intelectual das qualidades das letras hebraicas, assim como a adoção das Sefirot, como um elemento de mudança de comportamento e emprego de um rígido código de conduta. A ênfase maior em práticas místicas seria empregado dentro do serviço religioso, através de “Hitlahavut” (Entusiasmo), permitindo um maior encontro do ser com o Divino. Neste aspecto há uma forte influência do Chassidismo, o que não significa que seus mestres não conheçam maneiras mais avançadas de se vivenciar o “encontro com o divino”, mas que esta seria a forma ideal para que todo ser humano convivesse com a Cabala.

Temos também a “Cabala Extática”, que embora esteja associada muito fortemente com os estudos e práticas do Rabi Abraham Afuláfia, teria suas raízes em práticas muito antigas, relacionadas aos patriarcas bíblicos, além dos maiores profetas que a humanidade conheceu. Suas experiências estão fundamentadas no próprio ser humano como um “canal” de habitação de D´us, por onde o “Shêfa”, ou “Influxo Divino” transcorre trazendo experiências profundas de “Ruach Hakodesh” (Inspiração Divina), onde a capacidade de percepção e aprendizado são aceleradas, até a Profecia, onde o cabalista torna-se o meio através do qual o Divino se manifesta na Terra. Dentro desta escola há um papel místico empregado nas letras hebraicas, vinculadas à Nomes Divinos, assim como “Tzerufim” (Permutações de letras) ou fórmulas de recitações que evocam estes estados de consciência alterados. Aqui também existe uma divisão clara entre cabalistas que trabalham com as letras do Alef-Bet e aqueles que preferem o caminho das Sefirot da “Etz Chaim” (Árvore da Vida).

Além destas, há a misteriosa “Cabala Prática ou Maassit”, que surge como o aspecto verdadeiramente mágico da Cabala, geralmente sendo ocultado pela imensa maioria dos sábios, mas que pode ser acessada através de vários elementos, levando-se em conta a perseverança do buscador. Primeiramente, através de um mestre cabalista, obviamente, mas isto não exime outras formas de apreensão, como aconteceram a cabalistas de todas as eras. Há também escritos antigos, como “Charba Demoshe” (A Espada de Moisés), “Sêfer Harazim” (Livro dos Segredos), entre outros, que concedem chaves para esta parte da Cabala, tal qual dizia o grande Rabi Yossef Tsayach: “Mais do que eu escrevi, o inteligente entenderá”. 

Não é de admirar que esta forma de emprego da Cabala seja guardado à sete chaves, ao ponto de muitos cabalistas chegarem a declarar a Cabala Maassit esteja morta ou que seja inacessível nos dias de hoje. Porque sua utilização está vinculada à alteração de situações, muitas vezes mudando o curso das ações ou alterando a normalidade das coisas, exercendo influência sobre o andamento das leis naturais, o universo e até as instâncias superiores agindo através de “Malachim” (Anjos), “Shedim” (Demônios), e acessando conhecimentos estruturais sobre a arquitetura utilizada por D´us em sua obra de construção. Daí surgem as histórias sobre “Golens” e como “Shlomo HaMelech”, ou o Rei Salomão exercia seu poder, para controlar seres de outras esferas e obter deles poder, que inclusive foi utilizado na construção do Templo de Jerusalém.

Claro que ao escrever este texto e abordar todas estas coisas, tudo parece muito irreal, mas se citarmos outras práticas, conseguimos enxergar que a Magia na Cabala é algo bastante real. Sabemos que a Torá e os demais escritos sagrados nos revelam códigos, onde podemos ter uma maior compreensão da mistica que envolve o nosso mundo, podendo acessar as camadas superiores do Intelecto Divino. Poderíamos citar neste texto inúmeras passagens Bíblicas, Talmúdicas, Midráshicas, sem falar nos livros clássicos da Cabala que comprovam esta tese, mas este texto tem a intenção de ser mais acessível às pessoas por isso, prefiro abordar questões claríssimas, para evidenciar o quanto a Maassit é real no ponto de vista cabalístico.

Quando observamos o “Yom Kippur” (Dia do Perdão), na época em que havia o Templo de Jerusalém, o “Cohen Gadol” (Sumo Sacerdote) trancava-se no Santo dos Santos e lá encontrava-se “cara à cara” com a “Shechiná”, a Presença Divina, onde obtinha o perdão para todos os pecados cometidos pelo povo judeu. Onde enxergamos o poder de influência do ser humano, em coisas do Divino. Da mesma forma, há uma subdivisão da Maassit dedicada à talismãs, que concedem qualidades especiais, certos poderes de proteção e que ampliam a capacidade de poder do cabalista para certas práticas. Neste aspecto muitos objetos utilizados pelo Judaísmo hoje, podem ser dotados de características mágicas como Tefilin,  Tzitzit, Mezuzá, Talit, entre outros. Mesmo uma “Brachá” (Bênção Cabalística) dependendo da forma como é proferida, pode ser enquadrada nesta categoria.

Afora tudo o que foi colocado, o mais importante no final das contas, seja lá qual abordagem for adotada, é o “Hamschachá”, ou resultado espiritual que será obtido através da prática, já que sempre estará associado à Intenção aplicada. Como dito acima, nenhuma visão da Cabala é superior à outra, apenas as diferenciações de emprego servem para se ajustar aos diferentes recipientes (almas), sedentos de proximidade com o espiritual. Assim, podemos entender, que cada forma de se vivenciar a Cabala, está diretamente ligada à capacidade intelectual e espiritual que aquela pessoa tem de absorver tais ensinamentos e, por isso, durante a história houveram inúmeros mestres e práticas, para que tais necessidades da alma pudessem ser satisfeitas, cada qual ao seu nível e ao seu tempo de maturação.

Desejo ardentemente que possamos cada vez mais, abrir portas.

Cordialmente,

Rafael Chiconeli