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PARASHÁ VAERÁ – A ANGÚSTIA DA ALMA

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“E Moisés falou aos Filhos de Israel, porém eles não escutaram por angústia da alma” (Zohar Vaerá).

A parashá nos situa na difícil situação de Bnei Israel no Egito e o quanto viviam debilitados sob o jugo da difícil escravidão, sob a qual falamos na interpretação mística da parashá anterior. Em verdade os reflexos bíblicos que a Torá passa a transmitir, estão sob a humanidade hoje em dia, numa realidade tão óbvia que salta aos olhos. A degradação da humanidade é o tema, através do desprezo ao amor, que se torna paixão pela violência e destruição, onde se superar não é o ideal, mas sim superar o outro.

As situações não teriam o peso que tem hoje, se as pessoas enxergassem que as respostas já foram todas escritas e ditas. A Torá dá à todo ser o caminho de sua redenção, através da manifestação da vontade de D-us em relação à todas as Suas criações, tão belamente resumida em: “amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Vaycrá 19:18). Mas realmente é difícil de ver isto, enquanto cada um não se livrar de seu próprio “Egito Interior”.

O Talmud nos relata que “Esav odeia Yacoov”, como uma relação profunda entre a Alma Animal e a Alma Divina que cada ser possui em seu interior e que travam um combate pelo controle das ações humanas. a Angústia da Alma que o Zohar nos relata, está no fato de a alma divina de cada ser não  conseguir dar plena expansão à sua máxima vontade que é servir ao Criador através de pensamento, palavra e ação. Por isso, naquela altura eram incapazes de ouvir a Moisés, como muitos de nós não conseguimos dar ouvidos às mensagens puramente espirituais.

Uma alma angustiada é aquela que está nas profundezas de Malchut, sem permitir que esta última sefirá em seu interior seja abrigo para as nove outras, que fluem em maior consonância com o divino. Quando não há equivalência de forma entre o homem e D-us, não há nada porque o canal para a elevação do ser se torna suspenso ou interrompido de forma quase que permanente. Isto representa o Tzim-Tzum (separação) permanente entre dois elos que deviam estar unidos, tal qual um casamento.

No Shir Ha Shirim (Cântico dos Cânticos) conseguimos perceber que O Rei Salomão nos transmite um ideal das uniões perfeitas, relatando como deve ser a relação entre a humanidade e seu Criador, na intimidade mais profunda. Ao sentir a necessidade desta união, como um vaso que precisa ser preenchido, cada qual , pode provar as delícias deste ibum (fusão) e crescer em espiritualidade mesmo aqui em meio a vida material. D-us relata em toda a Torá e através de seus profetas, que acompanharia o Seu povo na Galut (Exílio).

Moisés é o tzadik, o enviado de D-us, para despertar as mentes e as almas daquelas pessoas angustiadas. elas não ouviam a sua voz, porque as camadas de cascas eram por demais duras, não permitindo a penetração da sabedoria divina. Porém, poucos sabem que o mero anseio em se conectar é uma expressão de cada alma, sua condição natural, ainda que em meio à materialidade. O que significa, que se houver uma vontade verdadeira, por mais ínfima que seja, a mensagem do amor divino chegará aos ouvidos outrora surdos, revertendo a condição desfavorável da alma humana.

Quando Moisés usou os “sinais”, com os quais D-us lhe havia orientado a apresentar diante dos Filhos de Israel, ele permitiu, com que os mesmos estivessem presentes nos dias de hoje para aquelas almas que anseiam pela verdadeira liberdade. Se você realmente quiser, a “Kol Demamá Daká”  (Voz Silenciosa) ressoará em seu coração e então redimirá da influência maléfica da alma animal, no seu interior.  Basta querer se conectar.

Shalom!

Rafael Chiconeli

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PARASHÁ SHEMOT – UM SALTO QUÂNTICO

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“E quanto mais os afligiam (aos israelitas), tanto mais este se multiplicava e se fortalecia” (Shemot 01:12).

Estamos numa semana muito penosa,  que terroristas islâmicos mataram pessoas inocentes em Paris, França. Não é de hoje que os radicalismos intensificam e que muitas vezes a situação parece ficar tão grave que muitos chegam a pensar que nosso mundo não tem mais solução e que esforços pela paz são em vão. A parashá desta semana fala de um momento parecido, quando o povo judeu vivera bem no Egito, fortalecido pela influência de Yossef, e um faraó ganancioso literalmente iniciou uma espécie de “limpeza étnica”, eliminando as conquistas e matando recém-nascidos.

O Zohar nos ensina que não importa para onde os israelitas fossem, já que a Shechiná (Presença Divina) também ia com eles. O grande problema não eram as condições adversas que apareciam, mas sim a dificuldade em tomar consciência de que a solução está bem diante do próprio nariz, Aquela geração enfrentava dificuldades pela primeira vez, embora fossem descendentes de Yacoov, tinham experimentado o melhor no país estrangeiro até então, o que traz importantes lições sobre a natureza dos acontecimentos.

Costumo dizer em minhas aulas, que “o sofrimento é pedagógico”, porque a sua função é gerar mudança e consciência, embora o ser humano tenha a tendência de paralisar, quando ocorrem tais situações. A rápida mudança da condição de povo privilegiado a povo escravo, era simplesmente o agravamento de uma mesma situação que a consciência acomodada não permitia ver. Mesmo diante dos luxos egípcios, o povo judeu já era escravo, pelo perigo que representava a assimilação à costumes estranhos.

Muitas vezes as trevas agem em estágios, instalando-se aos poucos na existência, penetrando pelas brechas que permitimos, à medida que nossa espiritualidade vai decaindo sem que possamos reagir. O que aconteceu, foi que gradativamente, a percepção da Shechiná foi desaparecendo e a sensação de abandono foi tomando conta de todos, onde o Zohar usa como comparativo o “pão egípcio”.

Diz o Zohar: “Rabi Chiyá aplicou aos israelitas que baixaram no Egito o seguinte versículo: ‘não comas o pão daquele que tem um olho mau’. Disse: ‘Em realidade, o pão ou qualquer outra dádiva graciosa ofertada por um homem de olho mau não merece ser compartilhado ou saboreado’. ‘Os Filhos de Israel, que estiveram no Egito, se não tivessem gostado do pão dos egípcios não haveriam permanecido ali em exílio, nem tão pouco os egípcios teriam os oprimido” (Zohar Shemot).

Neste caso, o que fica claro é que não podemos abrir mão de nossa identidade espiritual pura, para costumes que não dizem respeito ao que o Criador deseja para nós. Ao descumprirmos o que D-us definiu para cada um de nós, judeus e não-judeus, nós estamos comendo do “Pão Egípcio”, que é oferta de Samael, o testador e colaboramos para que a Shechiná se afaste de nosso mundo. Assim o Zohar diz sobre estas pessoas: “melhor que nunca tivesse nascido”, já que desprezar a oferta de D-us, pela de Samael é o mesmo que praticar idolatria.

 Vemos então, que neste estado a luz vai se fazer presente através das mulheres de Israel, que continuaram seguindo os mandamentos divinos e realizando partos, apesar das proibições que o faraó estabeleceu. Se o mandamento de “crescei-vos e multiplicai-vos”, fosse desprezado Moisés, nosso mestre, jamais teria nascido para redimir nosso povo. O apego das parteiras israelitas a esta mitzvá em particular, significou o início da recusa deste pão maligno e o início de um salto quântico para todo o povo judeu.

Esta retomada de consciência, concede resistência e reunifica a certeza da missão e da mesma forma que o passuch introdutório deste estudo, esta visão permite com que as “pancadas da vida”, possam ser absorvidas para que o ser humano se fortaleça e cresça com elas. A pedagogia do sofrimento, não significa acostumar-se com ele, mas sim torná-lo trampolim para a vitória.

Shalom!

Rafael Chiconeli

PARASHÁ VAYECHI – LIGANDO-SE À UM JUSTO

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“Vocês que aderiram ao Eterno vosso D-us, mereceis, cada um, vida neste dia” (Zohar Vayechi).

A parashá desta semana nos conta sobre o final da vida de Yacoov, o terceiro de nossos patriarcas, que teve uma vida de muitas dificuldades, até alcançar seu real objetivo. Muitas pessoas quando perdem um ente querido tendem a se entristecer, sentindo um distanciamento gigantesco, e, de fato um abismo que se abriu entre duas pessoas que se amavam. Na Cabalá, aprendemos  que as coisas podem ser visualizadas de maneira profunda ou literal, onde a morte nos traz profundos ensinamentos sobre a realidade da nossa existência (raízes e ramos).

O Midrash nos traz uma profunda visão, sobre a palavra “viveu”, que se relaciona à morte de Yacoov, junto à seus filhos e netos no Egito. É muito clara, na parashá a intenção do patriarca em deixar instruções claras para que sua descendência pudesse se conduzir, após sua ausência física. Isto acontece, porque o universo é um todo, que está se construindo instante a  instante, onde cada ser é um arquiteto nesta construção. Yacoov conhecia as leis cabalísticas da interrelação entre mundos, o que em verdade nos prova a existência da eternidade e que a revelação ou ocultação do “para sempre” depende unicamente da qualidade de nossas ações.

Nossos sábios ensinam: “os tzadikim (justos), apesar de sua morte, são chamados vivos. Os rashaim (malvados), apesar de sua vida, são chamados mortos” (Midrash). A referência aqui é que o que separa o tzadik do rashá é a intenção das ações, o que resultará em legado positivo ou não; assim somos capazes de compreender a pressa de Yacoov em abençoar sua descendência no pouco tempo que ainda lhe restava. O tzadik se eterniza, pois suas ações visam deixar frutos bons, estes são os ramos desta raiz, enquanto que o rashá só visa ações temporais, seu foco é o finito, a matéria, logo seus ramos serão inúteis, já que a raiz em si é morta.

Já comentei em outros estudos, que segundo o Tanya, nossos patriarcas eram como “carruagens para D-us”, justamente porque sua Kavaná era unicamente realizar a vontade do Eterno e não a própria. Esta aderência, é justamente o segredo que conecta nosso estudo às verdades enunciadas no passuch do Zohar, que abre este escrito já que ela resulta na Eternidade de seus beneficiário. Quando o desejo real de uma pessoa é a conexão com D-us e nada mais, o desejo deixa de ser seu, e passa a ser o divino, resultando em ações que jamais serão esquecidas, sendo constantemente relembradas pelo benefício gerado à muitos.

Obviamente que a compreensão das ações de um justo nem sempre é automática, já que a ação divina neste mundo está pautada pelo Tzim-Tzum, o que significa uma relação profunda entre a ocultação e a revelação. Apesar da intenção ser positiva, por vontade divina, ela pode ser ocultada, para somente ser revelada “lá na frente”, beneficiando um número maior de pessoas.  Por isso a relação mística das raízes e dos ramos, pois ainda que você não tenha conhecido pessoalmente certo tzadik, pelo estudo de suas obras e pela adoção de suas práticas, você se torna parte daquela raiz, colhendo dos méritos do justo, unificando-se igualmente com D-us.

Daí, compreendemos através deste estudo é que os justos são eternos, e que para eles a morte não existe, já que se fazem presentes através de seu legado, que foram seus ensinamentos. Muitas pessoas hoje estão vivendo fisicamente, mas em verdade estão mortas, porque não estão deixando nada de permanente para o próximo, pois só se preocupam com assuntos da materialidade, o que criam um “gargalo” entre Yessod e Malchut, impedindo que as bênçãos as abasteçam.

Exatamente por isso os tzadikim são associados à sefirá Yessod, já que ela é a responsável pela transmissão da energia oriunda das sefirot superiores, que “descem” a este mundo através do Kav. Não é a tôa que dentro da dinâmica da Etz Chaim, Yossef, filho do patriarca representa sefirá Yessod, que que as retificações que fez, através do que aprendeu com seu pai, permitiram a ele tornar-se um transmissor do legado que recebeu. Quando os seres humanos seguem o mesmo caminho, em se juntar à raiz espiritual pura, recebem eles mesmos a habilidade de receber bênçãos e compartilhar com eficácia.

Shalom,

Rafael Chiconeli

PARASHÁ VAYIGASH – UNIÃO COM A SHECHINÁ

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“E disse: Eu sou o D-us, D-us de teu pai; não temas descer ao Egito, porque lá Eu farei de ti uma grande nação. Eu descerei contigo ao Egito, e Eu te farei subir também…” (Bereshit 46:03-04).

O texto literal da parashá relata o sucesso de Yossef no Egito e a vontade do mesmo em que a sua família que estava em Eretz Israel, o acompanhasse ao país do faraó. Yacoov, nosso patriarca, se mostra reticente com relação à isto, por ter consciência de que o Egito era um país dominado pela idolatria. O passuch acima, nos mostra que em meio à dúvida dele, o Criador se manifesta, afirmando que não se trata de uma simples mudança, mas de cumprir o que está determinado para o Povo de Israel.

Já relatei anteriormente, que o povo judeu sofre forte oposição neste mundo, por sua missão de ser “Luz Entre as Nações” (Yeshayahu 49:06), o que também ocorre para aqueles que se inclinam junto aos israelitas para que este objetivo divino seja cumprido. Porém, é preciso dizer é que a sensação de desamparo que há neste mundo é apenas ilusória, já que em seu ato de extrema bondade, D-us também se auto-exilou, permitindo que sua Shechiná habitasse Malchut e assim facilitasse o contato entre Criador e ser criado.

Rabi Shneur Zalman de Liadi nos explica no Tanya que há neste mundo uma sensação de independência entre as criaturas, como se elas não dependessem de nada para existir. Isto cria em muitos seres a sensação de impunidade, acreditando que podem fazer exatamente tudo o que quiserem, sem acreditar que terão de assumir alguma responsabilidade. Nesta parte do Tanya aprendemos que nossa independência é igual à luz do sol aqui na terra, pois devido à distância nos parece que tanto a luz quanto o sol são distintos.

Porém, da mesma maneira que ao aproximar-se do sol, o homem percebe que não há separação, e que a luz pertence ao sol, percebemos também que o ser humano está aderido ao Criador, e a única razão de nos acharmos distintos do Criador, está em Sua ocultação. Estas leis espirituais só podem ser entendidas através da visão mística do Judaísmo, já que os grandes mestres e toda a bibliografia que nos permite compreender realmente o que de fato acontece, está na Cabalá. Assim como Yossef compreendeu que o seu estado de solidão era uma ilusão, o mesmo era solicitado à Yacoov.

O Zohar, na poção Vaygash nos diz: “O Rei Davi costumava levantar-se de sua cama meia-noite para estudar Torá e cantava canções de modo a causar júbilo no Rei e na Matrona”. Sabemos pela Cabalá que o Rei é o aspecto mais elevado do Criador, assim como a Matrona nada mais é que a própria Shechiná, o que evidencia que o vínculo obtido através de nosso estudo, oração e de forte meditação faz com que esta Presença Divina “paire” sobre nós, o que representa prazer para ser humano e D-us, pois o resultado final disso é conexão.

Na parashá, o Egito representa o aspecto mais rebaixado de Malchut, onde a idolatria reina, mas ainda assim Yacoov deveria “descer” até lá, porque haviam almas a serem resgatadas e também porque o Criador iria junto. Não importa o quanto a situação é aparentemente degradante, mas pela sabedoria que o Eterno nos legou, que nos permite experimentar uma permanente conexão com ele, tudo o que vier há de nos engrandecer.

Shalom,

Rafael Chiconeli

PARASHÁ MIKÊTS – Árvore da Vida ou Árvore da Morte?

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“E disse: quão felizes são aqueles que trabalham na Torá e assim, aprendem a ver com os olhos da sabedoria. Tudo o que D-us formou no mundo, tem seu próprio grau de controle, que dirige para o bem ou para o mal. Existem graus para a direita e graus para a esquerda. Se um homem ruma para a direita, qualquer ato que realiza, se volta um grau diretor neste lado, que o ajuda e faz com que os outros o ajudem. Porém, se ruma para a esquerda, qualquer ato que realiza, se volta uma força diretora neste lado, que traz decretos ruins contra ele” (Zohar Mikêts).

Esta Parashá, nos mostra efetivamente a magistral realização de Yossef e sua interpretação profunda sobre o sonho do faraó, algo que nenhum feiticeiro do mundo conseguiu resolver naquela época. Isto ele conseguiu, porque estava inclinado à sabedoria da Torá, não aquela que estudamos em nossas casas, também chamada de Chumash (Pentateuco), mas sua parte profunda, na época de Yossef, somente oral, a qual hoje chamamos Cabalá. Isto, porque conforme nos confirma o Tanya, a Torá nos coloca em contato direto com o intelecto divino, o que faz o ser humano compartilhar, em parte, os “pensamentos do Criador”.

Ao fundir sua mente, corpo e alma com D-us e causar um Yichud (unificação), Yossef escapa de quaisquer distrações e eleva sua consciência diretamente ao plano das certezas, cuja origem é D-us. Seus concorrentes tinham poder, mas um poder mais vinculado ao que é terreno, então suas percepções eram distraídas pelas coisas do mundo, incapazes de transpassar a realidade de Assiá (Mundo Físico). Estes planos que estamos discutindo são extremamente místicos e fazem parte do propósito de cada um, pois cabe a cada ser humano saber o que busca ao final, se é o finito ou o infinito.

Estas dimensões ficam bem claras na análise do Zohar, sobre esta Parashá, já que o “grau da direita” é a Etz Chaim (Árvore da Vida), enquanto que o “grau da esquerda” é a Etz Mavet (Árvore da Morte). Yossef, ao ser vendido pelos irmãos e ter a mazal (destino) que teve, estava cumprindo um Tikkun, que lhe apresentaria chances de reparação, ou, dependendo das escolhas de piorar sua situação na existência. Quando caminhou à esquerda, atraiu para ele situações ruins, principalmente no episódio em que confia sua salvação à um copeiro do faraó e não em D-us. Por outro lado, todas as vezes que depositou 100% de sua confiança no Eterno e não nos homens, isto significou uma guinada à direita, o que lhe trazia ajuda e sucesso.

Seus opositores, como a esposa de Potifar (que foi responsável pela prisão de Yossef), estavam totalmente inclinados à esquerda, o que quer dizer que seus valores eram meramente finitos. Por isso eram regidos pelo ódio, e como o Talmud nos conta, “ódio é similar a idolatria”, pois a pessoa passa a ignorar o plano divino. Além disso, perderam a guerra interna que cada ser humano vive, sendo superados por sua Nefesh Habahamit (Alma Animal). Os cabalistas nos ensinam que só há um remédio, contra este mal e chama-se Torá, por isso o Criador a entregou à toda a humanidade, conferindo a Israel a missão de transmiti-la às nações.

Quando Yossef eliminou suas dúvidas e “trabalhou na Torá”, trouxe luz não só sobre ele, mas sobre todo o mundo, fazendo com que todos recebessem benefícios. Isto não quer dizer que as oposições contra si fossem eliminadas, afinal ainda existiam pessoas que o odiavam. Mas que ele venceu o pior de todos os inimigos, que é o Yetzer Hará (má inclinação), que é interno. O maior inimigo de uma pessoa é ela mesma, não é à toa que o Talmud nos pergunta e ao mesmo tempo responde: “Quem é forte?  É aquele que vence suas más inclinações” (Talmud Bavli).

Shabat Shalom!

Rafael Chiconeli

PARASHÁ VAYÊSHEV – A INVEJA E SUA ORIGEM

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“E disse: muitos são efetivamente os adversários com quem o ser humano há de contender desde o dia em que D-us insufla nele uma alma neste mundo. Pois tão certo como emerge a luz do dia, o mal instigador está pronto para se aproximar à ela” (Zohar Vayêshev) .

Esta parashá nos ensina sobre a vida de Yossef, e o quanto era odiado por seus irmãos, em função da preferência que Yacoov , o pai, tinha para com ele, em detrimento deles. A Torá nos mostra que o grande motivo do ressentimento deles, era porque o irmão mais novo era leal ao pai, portanto amava sua companhia e compartilhavam momentos juntos. Yossef então começa a despertar seus dons, de interpretação de sonhos e tem uma profecia, na qual se vê liderando a Casa de Israel, o que determina sua mazal (destino) na mente dos irmãos.

Os nossos sábios interpretam que estes adversários com os quais nós temos que contender, não são físicos. Em verdade, eles estão nas Klipót(cascas), vinculados ao lado maligno que é um estado muito rebaixado da existência, mas da mesma maneira que o justo é capaz de atrair para este mundo a luz divina, o perverso também traz para nossa existência as trevas. O que significa que por equivalência de forma (emoções similares), o maligno consegue um ibum (fusão), com a pessoa e passa a atuar através dela. No que chamamos no CCI de caminhar rumo a “terceirização do livre-arbítrio”.

Isto acontece por uma dinâmica muito mística: o bem representa a “presença de D-us”, enquanto o mal representa a “ocultação do divino”, exatamente porque esta conexão com o Criador atrai a Luz, que nutre todas as coisas e as forças das trevas também tem esta necessidade de nutrição, já que na Sitra Achrá (outro lado), a luz divina que penetra, é somente o suficiente para gerar subsistência e não prazer. A única maneira que a força maligna tem de obter prazer é se vinculando aos seres humanos dos  quais sugam força vital, porém se o “brilho” é intenso demais estas forças são repelidas.

O que podemos entender da seguinte forma: a princípio estas forças tentam agir no justo, porque sua luz é extremamente intensa e sedutora, mas isto acaba por ser impossível, já que a intensidade expulsa o maligno. Então as forças klipóticas atuam no elo fraco, pessoas que possuem a força vital necessária para lhes gerar prazer, mas que não chega a ser tão forte para repelir o mal. Porém, a klipá guarda um ressentimento enorme do justo, por não poder residir nele, então usa as pessoas que estão sobre a sua influência para atacá-lo.

Existe uma história que explica isso: certa vez um homem tinha um bazar pequeno, mas estava muito mal nos negócios. em contrapartida, o seu vizinho tinha um bazar gigantesco, que só prosperava. Então, chateado, este homem falava mal do vizinho para todo mundo, muitas vezes através de mentiras. Mas isto não mudava a sua situação, então decidiu procurar um cabalista. O cabalista disse: “realmente você tem uma situação muito difícil, porque você está administrando dois bazares”. Então respondeu o homem: “você não entendeu, eu só tenho UM pequeno bazar”! Nisto o cabalista finalizou: “então, por que você pensa tanto no bazar do vizinho? Preocupe-se apenas com o seu”.

A inveja está baseada no princípio de querer o que é do outro, porque o invejoso em geral não enxerga o potencial que ele próprio possui em conquistar, porque sua visão está encoberta por estas cascas as quais ele está vinculado, pela maneira ruim como conduz as vestimentas de sua alma: pensamentos, palavras e ações. Por isso, ainda que possa conquistar coisas no campo material, ele está falido espiritualmente, já que estas forças o instigam a sempre contra alguém.

Diz a Torá: “muitas são as adversidades do justo, mas D-us sempre o livra de todas elas” (Tehilim 34:20). Porque como o Zohar nos ensina, que o Criador se deleita com a pessoa que vive em comunhão com Ele, realizando as suas coisas, sem se incomodar com o que os outros estão fazendo, já que o justo fica feliz com a vitória alheia. Justamente era isso que Yossef tinha e seus irmãos não. Analisando friamente, o irmão mais novo passou por todos os empecilhos, ao ser vendido como escravo no Egito, enquanto que seus irmãos que o venderam gozaram da Terra de Israel. No entanto internamente eles sofriam, enquanto que Yossef era feliz, pois estava em Devekut (comunhão) com D-us.

Ao final, da Parashá fica claro quem prosperou de verdade, porque como nos ensina o Rei Salomão: “um pouco de sabedoria, elimina muita ignorância, tal qual a tênue luz de uma vela expulsa muita escuridão”.

Shabat Shalom!

Rafael Chiconeli

PARASHÁ VAYISHLACH – “SUBJUGANDO O MAL”

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“E mandou Yacoov mensageiros à sua frente, a Esav, seu irmão, à terra de Seir, ao campo de Edom. E ordenou-lhes, dizendo: ‘assim direis a meu senhor, a Esav ‘  – ‘com Lavan morei, demorei-me até agora. E tive bois e jumentos, ovelhas e servos e servas; e mandei anunciar a meu senhor, afim de conseguir graças a teus olhos” (Bereshit 32:05-06).

A Torá retrata o momento que em Yacoov a abandona a moradia com seu sogro Lavan (que o explorava), e segue seu caminho rumo à terra que recebera a missão de estabelecer seu povo. Porém, havia um problema: Esav seu irmão estava vindo de encontro à ele, pois queria se vingar, do fato de Yacoov ter recebido a primogenitura de Isaac, em seu lugar o que remoera a sua alma por todos os anos em que estiveram separados. Assim, o patriarca que viajava com suas mulheres, servos, filhos e pertences, envia os mensageiros à frente para que avise o irmão furioso, sobre todas as coisas acima. Mas qual razão disso?

É preciso primeiro entender que tratava-se de um caso extremo, afinal Yacoov não viajava com um exército e sim com mulheres e crianças, enquanto que seu irmão e rival estava vindo até ele, com um exército de 400 homens. O mais intrigante é que a Cabalá, nos revela que este número se referencia às 400 porções de Tumá (impurezas), revelando-nos que a companhia de Esav eram as Klipót (cascas), representando a força negativa de aspecto maligno. O duelo que se anunciou estava na esfera espiritual e não na física, o que era ainda mais perigoso dada a responsabilidade que o patriarca tinha.

Então, o Zohar, nos traz brilhantes revelações, de porque Yacoov enviou os mensageiros, com aquele tipo de mensagem específica: “Rabi Yehuda perguntou – Qual foi a intenção de Yacoov ao enviar mensageiros para informar Esav que ele vivia com Lavan? O que ele alcançou ao contar isso a ele? A razão, foi que Lavan, o arameu, era famoso no mundo como mago e feiticeiro cujos encantamentos nenhum homem conseguia escapar. Ele foi pai de Beor, pai de Bilam” (Zohar 166 a-b).

O objetivo era claro: se Lavan, o maior feiticeiro daquele lugar, não tinha conseguido derrotar Yacoov, não seria Esav que conseguiria. Devemos entender aqui, que o envolvimento do sogro do patriarca com a Sitra Achrá o “outro lado” (mau) era muito mais íntimo, porque através da magia ele conseguia manipular forças da natureza e atacar pessoas. Na Torá, fica claro que Lavan fez de tudo (recorrendo à forças sobrenaturais), para evitar que Yacoov o deixasse, já que graças ao israelita, seus negócios eram abençoados. Por isso, a matriarca Rachel teve a brilhante idéia de desaparecer com seus ídolos, quando da partida, o que marcou a derrota espiritual de Lavan (Bereshit 31:34).

Outro código cabalístico na mensagem, é tempo longo que viveu com o feiticeiro, já que “com Lavan morei”, que segundo Rashi, é interpretado como “e morei (vivo)”, tem o valor de gemátria 613 que remete às 613 mitzvot observadas por cada judeu. Ou seja, Yacoov ficou todo aquele tempo, ao lado da idolatria, da maldade e ainda assim não se corrompeu, mantendo-se firme no cumprimento dos mandamentos. Isto teve que ser ressaltado “demorei-me até agora” , para não restar dúvidas a Esav, que era cético e poderia até conceber que alguém resistisse ao feiticeiro por pouco tempo. Porém, todo este tempo (20 anos), só alguém de fortaleza espiritual absoluta resistiria.

Ele também cita os animais e servos que trouxe consigo, o que tem duas razões principais, segundo a mística judaica: a primeira e mais simples, é para Esav compreender, que não só ele tinha resistido às forças espirituais impuras, como prosperado diante delas. Isto foi mostrado (Bereshit 30:38-43), quando as ovelhas sobrenaturalmente mudaram de cor, para beneficiar Yacoov e sobrepujar a magia de Lavan. A segunda, mais esotérica e de acordo com o Zohar informa que os “bois e jumentos” representam o aspecto masculino e feminino da Klipá (casca ou força negativa), sendo o masculino o agente ativo da maldade, despejando sua semente maligna no mundo e o feminino o passivo, que seduz e ilude os puros, para encarcerá-los na Sitra Achrá.

As “ovelhas, servos e servas” se vinculam às sefirot inferiores da Árvore da Morte, chamadas também de Coroas Inferiores. Recebem este nome, porque como nos relata o Tanya, elas incutem o pensamento de que existe soberania além de D-us, criando a idolatria, que se manifesta nos dias de hoje, justamente através do egocentrismo e pela maldade irrestrita. Quando Yacoov diz a Esav que tudo isto está em seu poder, ele quer dizer de maneira profunda que ele tem controle sobre estas forças, porque as subjugou.

Baseado em tudo isso, a visão de Esav mudou, pois lembrou automaticamente do que D-us tinha prometido à Abraham, seu avô: “E abençoarei os que te abençoarem, e aqueles que te amaldiçoarem, amaldiçoarei” (Bereshit 12:03), ou seja, quem bendiz o descendente espiritual de Abraham (Israel), colhe bênçãos e quem o ataca sofre consequências terríveis. Assim, naquele instante as Klipót que acompanhavam Esav são rebaixadas e acontece conforme a Torá relata: “E correu Esav a seu encontro (de Yacoov) e abraçou-o, e lançou-se a seu pescoço e beijou-o e choraram” (Bereshit 33:04)

Shabat Shalom para todos!

Rafael Chiconeli

PS: para receber nossos informativos em seu e-mail, escreva para: ccibrasil@hotmail.com