CABALÁ E FOFOCA: O LADO MÍSTICO DA MALEDICÊNCIA

INTRODUÇÃO:

A humanidade já testemunhou inúmeras revoluções existenciais, cada qual em sua característica, trazendo inovações que transformaram para sempre a sociedade de cada época. No começo, a humanidade ignorante competia pela força física e numérica, que por sua vez foi substituída pelas dinastias e a hereditariedade do sangue. O tempo passou, dando seu lugar à força do capital e a ousadia mostrada pelas maiores produções e bens de consumo, até que igualmente isto cedesse lugar às invenções que tornaram tudo mais rápido e prático. Nos dias de hoje, estamos em curso numa nova fase, embora tudo o que citei anteriormente ainda represente poder, nada disso pode ser comparado ao efeito que a comunicação desempenha sobre o ser humano.

As mídias sociais só representam um movimento que é natural ao ser humano, sua voracidade em reter e comunicar coisas e, ao mesmo tempo se relacionar com o próximo. Dentro da Cabala, tudo isto pode ser resumido na faculdade da fala, que não só rege os sons que se deslocam através das bocas, mas também aquilo que digitamos ou escrevemos, que tem igual força tanto na matéria quanto no espírito, dependendo da forma como aplicamos esta faculdade. Principalmente, quando tratamos da Internet, que tem a capacidade de espalhar nossos pensamentos para milhares e até milhões de pessoas em poucos minutos, percebemos o quão sério é o universo da comunicação.

Desde o princípio a Cabala toca neste aspecto da expressão humana, quando na Torá, percebemos que a Obra da Criação se fundamentou de declarações oriundas de D´us e que propiciaram o surgimento da existência até o ponto conhecido por nós. Através do Sêfer Yetzirá (Livro da Criação), percebemos que o Criador unificou as letras do Alef-Bet, à 10 emanações ou recipientes, chamados Sefirot para que Seu poder fosse condensado dos planos superiores, formando os inferiores. Podemos resumir todo este processo, dizendo que D´us empregou as palavras certas em suas declarações e, à partir disto o todo foi se formando, inclusive nós. Afirmamos assim, que somos criados pela “boa fala” ou emprego correto das palavras.

Assim como as palavras têm o poder de gerar o bem, podem gerar o mal. Em Cabala, há um termo hebraico que denomina isto, cujo termo é “Lashón Hará”, cuja tradução literal seria “Má língua”, mas que têm outros significados mais amplos, como “Maledicência”, ou até a popular “Fofoca”, que estão vinculados não somente à maneira como se expressa, a fala, mas sim à Kavanná (Intenção) empregada. Por isto, os cabalistas advertem, que não há diferença se o mal é causado de forma escrita ou falada, pois a intenção, é o primeiro elemento identificador. Obviamente que podemos utilizar a expressão de maneira ruim, sem intenção para tal, e neste caso, o segundo elemento identificador se manifesta, que é a forma como o outro foi atingido por aquilo que dizemos ou escrevemos sobre terceiros, o que não exime culpabilidade.

UMA EXPRESSÃO DA ALMA:

Na mística que vivenciamos, aprendemos que a “Neshamá” (Alma) têm três vestimentas, através das quais se manifesta em totalidade neste mundo: Pensamentos, Palavras e Ações. No tratado “Chovot Ha Levovot”, aprendemos que “A Boca é o Cálamo do Coração”, porque justamente através da expressão da pessoa, conseguimos entender o que se passa em seu interior, pois palavras despejam publicamente o conteúdo da alma de cada um. Logo, na visão cabalística, uma boca que cospe veneno age como como meio de vazão para um coração (alma), que produz veneno. Como o ser humano não é uma cobra ou aranha, seres que vivem existências inteiras portando veneno em seus interiores, é fácil saber que eventualmente, chega uma hora em que a pessoa torna-se incapaz de carregar algo tão nocivo em si, pelas severas consequências oriundas disto.

Assim como são três as vestimentas da Alma, também são três as formas como a Lashón Hará funciona: O primeiro é falar para alguém aspectos negativos de uma pessoa, o segundo, é procurar os outros para lamentações à respeito de si ou de terceiros e o último é a pessoa servir como meio, ou seja ouvir as fofocas e/ou lamentações. Obviamente, podemos entender que isto cria ou círculo vicioso do mal, já que não raramente as pessoas que ouvem uma foca ou lamentação dão continuidade ao mesmo processo, gerando uma energia espiritual extremamente nociva e maligna, não só para quem é alvo, mas, sobretudo para quem as executa e dá vazão.

Há uma ilusão entre as pessoas de acreditar que a maledicência só faz mal àquela pessoa que é alvo, sendo que todas as partes envolvidas numa Lashón Hará são atingidas, principalmente e surpreendentemente àquela (as), que profere (em) e as que dão atenção à mesma. Um exemplo clássico, nós temos através da Torá em “Bamidbar” (Números), através da irmã de Moisés, Miriam, que “falou contra Moisés por causa da mulher Cushita que tomou” (12:01). No caso, ela estava atacando Tziporá (que vinha da terra de Cush, portanto Cushita), que era esposa de Moisés, mas por que o faria? Para ajudar? Alguma razão Virtuosa, podemos presumir… A Gemátria (Numerologia Cabalística), vai nos mostrar, o porque dos ataques:

A Palavra Cushita, assim como toda palavra carrega um valor oculto, que começamos a vislumbrar, quando passamos tudo para o hebraico. כושית, vai ser desmembrada da seguinte forma, sequencialmente da direita para a esquerda: Caf = 20, Vav = 6, Shin = 300, Yod = 10 e Tav = 400, cujo valor total temos 736. Agora, cruzaremos com outra expressão significativa, יפתמראה que também diz respeito à Tziporá e entenderemos a relação numerológica, seguindo a mesma ordem nos trabalhos: Yod = 10, Pei = 80, Tav = 400, Mem = 40, Reish = 200, Alef = 1 e Hei = 5, onde obtemos novamente o valor 736! Em Gemátria, sempre operamos no seguinte sentido: quando duas ou mais palavras têm o mesmo valor numérico, costumamos dizer que a relação entre elas é muito íntima ou que se referem à mesma coisa. Pois bem, esta última expressão hebraica, significa “Vistosa”. Ou seja, o motivo de Miriam atacar com fofocas a “Cushita”, esposa de Moisés, era por sua beleza, que a incomodava a tal ponto de ela tentar rebaixá-la para se sentir melhor.

Assim, percebemos espiritualmente, que a Lashón Hará é fortemente motivada pela necessidade que a pessoa tem em se sentir importante, identificada com sentimentos como o ódio, o ciúme e a inveja que segundo a mística que estudamos já é por si só, algo autodepreciativo. Isto também é mostrado pelo castigo recebido por Miriam, que após tudo o que fez contraiu Lepra, o que é bastante simbólico, já que nesta “Parashá” (Porção) relata-se que esta doença, fez com que ela ficasse completamente isolada de todo o Povo de Israel. No final, percebemos que o autor da Lashón Hará se auto-pune, porque mesmo aquelas pessoas que escutaram, automaticamente temem, que um dia possam se tornar alvos da pessoa fofoqueira, fazendo com que este isolamento aconteça, transformando-se numa verdadeira Lepra Espiritual (Morte em Vida).

Cabalísticamente, também há uma forte influência nos julgamentos celestiais, já que cada alma passa por uma avaliação onde se é levado em conta a missão proposta e o quanto de Tikkun (reparação) esta alma conseguiu realizar em sua experiência material. Na mística, Samael é o anjo responsável pelas acusações de almas perante o Tribunal Divino, sendo que quando uma ou mais pessoas proferem Lashón Hará de outra pessoa, elas estão fornecendo elementos para que o próprio acuse também SUAS PRÓPRIAS ALMAS. Isto, porque nos escritos de nossos sábios, a Justiça de D´us é perfeita: “Midá Kenegued Midá” (Medida por Medida), o que significa que quanto mais intolerância utilizamos para julgar os outros, mais intolerância será usada em nosso próprio julgamento. No Zohar é dito que Samael utiliza contra o mexeriqueiro EXATAMENTE as mesmas palavras que a pessoa utilizou quando cometeu a Lashón Hará.

SOBRE O ALVO:

Em Cabala outro tema constante é o da permanente comunicação entre as diversas esferas espirituais, a ponto de chegarmos à conclusão que mesmo à distância estas dimensões vivem em profundo ambiente de interação, por intermédio das criaturas que as habitam. É recorrente entre os cabalistas, que nas localidades mais inferiores, onde há a presença de “chispas” do poder criativo de D´us tais habitantes espirituais constituem nos seres mais atrasados da espiritualidade, justamente pelo cultivo de valores como ódio, inveja, ciúme e etc. A Cabala nos ensina que quanto mais revelação do Criador, mais prazer existe, quando mais ocultação dele, mais a dor toma conta, nos levando a entender que nestas esferas inferiores, as criaturas não estão sendo abastecidas suficientemente de energia vital e como não podem obter isto através de D´us, resta travar uma relação parasitária com os seres humanos.

Na verdade a pessoa que se dedica a Lashón Hará, está povoada de vínculo com seres destas dimensões inferiores, obviamente encoberta por Klipót (Cascas), numa relação viciante, tal qual nas histórias de ficção que lemos sobre a pessoa que se tornou obcecada pela mordida do vampiro. Quando a pessoa profere a Lashón Hará, ela se desgasta, doando assim energia vital, o que é rapidamente consumido por estas criaturas que habitam o “Sitra Achrá” (Outro Lado), ou seja, de fato, a pessoa está completamente envolvida por sanguessugas espirituais. Por isto há aquela clássica frase cabalística: “se uma pessoa vem e te bate com um cajado, em quem você revida? Na pessoa ou no cajado?” Em Cabala entendemos que, infelizmente, mesmo quem agride também é vítima.

Daí conseguimos perceber que a maledicência tem Modus Operandi básico, que é a razão óbvia do por quê dos grandes Tzadikim (Justos) serem alvo e dedicarem muitos de seus tratados sobre este tema. A ação de um trabalho em prol do outro, neste mundo sempre traz Luz, fazendo com que haja um canal através do qual o poder proveniente das esferas superiores possa abastecer o mundo material. Obviamente, muitas pessoas se beneficiam de boas ações, mas ao mesmo tempo o impacto do bem, faz com que muitas outras pessoas, que só vêem o lado da notoriedade, acabem por invejar e atacar o trabalho assim como a pessoa que o realiza. No aspecto espiritual, os seres da Sitra Achrá se utilizam deste sentimento para drenar estas pessoas (invejosas) e ao mesmo tempo, ampliar o mau sentimento para que a intensidade da drenagem possa aumentar.

Obviamente, pela interligação entre mundos, as consequências para quem age assim, vão além das questões espirituais e sociais, chegando claramente à atuação física, já que toda alma e corpo humanos têm vínculo direto com a mecânica da “Etz Chaim” (Árvore da Vida). A Sefirá vinculada à retificação da expressão humana, está em Malchut, que é a esfera onde há mais possibilidade de instabilidade e más consequências, dependendo de nossas ações. O eminente cabalista Rabi Nachman de Breslav (de abençoada memória) em seu Likutey Moharan nos previne das péssimas consequências oriundas da Lashón Hará, em várias regiões do corpo físico. Já Rav Brandwein (de abençoada memória) as aprofunda: Câncer (geralmente nas regiões da Boca, Língua e/ou Garganta), problemas no Coração, Diabetes, Hemorragias que são males que eventualmente levam adeptos da prática à morte prematura. 

E o que acontece com um Tzadik? Suas lições são de grande valor para nós, por isso, cito sempre as histórias de Rav. Brandwein (de abençoada memória) que foi imensamente difamado na comunidade judaica e fora dela, pelo trabalho de disseminação que desenvolvia com a Cabala, visando fazer dela uma ciência ao alcance de toda a humanidade.  Ele dizia claramente que tudo “faz parte do propósito”, e se um trabalho tem a chance de fazer com que pessoas possam adentrar na senda da Cabala e/ou da boa espiritualidade, toda oposição que se originar daí merece ser vivida. Isto porque a Cabala nos ensina a lidar com esta e qualquer situação, através do refinamento entre palavras e ações, quanto mais trabalhamos em prol do outro, menos ego existe e quando menos ego, menos a Lashón Hará faz efeito.

SHMIRAT HA LASHÓN:

Literalmente significa “Guardar a Língua”, quando entendemos que aquilo que falamos, pensamos e escrevemos também pode ser aplicado de maneira imensamente divina. Esta alquimia é vivenciada, quando pronunciamos uma Brachá (Bênção) sobre o vinho, que faz com que a bebida seja santificada e elevada para algo além do prazer mundano, mas para santificação do Criador, o que significa um elemento para revelar mais Luz à este mundo. Assim, as palavras podem fazer milagres, como eliminar o desespero, aproximar as pessoas, revelando assim o verdadeiro vínculo entre o ser humano e a sua essência divina. Por isto, a boca e suas extensões, como as mãos que utilizamos para dar vazão ao intelecto definem o tipo de ser humano que somos.

A Cabala nos ensina, que Guardar a Língua é nos calarmos, ao invés de proferirmos palavras contra o outro. Muitas vezes nos voltamos para os defeitos do próximo, porque é uma maneira que temos de nos sentirmos superiores, por isto, nos centramos no que é extremamente negativo, revelando igualmente e, sem perceber, o nosso pior lado. Por isto, aprendemos que nosso dever é flagrar qualidades no outro e, ao nos deparar com situações como acontecimentos desfavoráveis das outras pessoas, contra a nossa vontade, temos que sempre emitir um impressão favorável, através do atributo Chéssed (Misericórdia), que simboliza a disponibilidade de doar, no trato com o outro. Ou seja, nestes assuntos, devemos sempre buscar razões para perdoar o outro, o que pelo princípio de Midá Kenegued Midá, fará com que o Criador Julgue ao piedoso “como uma criança” (Talmud – Shabat 151b) : com amor, piedade e compreensão.

Então, o Shmirat Ha Lashón nos permite realizar algo incrível, como reunir as centelhas, que estão temporariamente separadas com a ilusão do individualismo exacerbado pela dedicação ao ego, manifestado na vontade de ser melhor que o outro. Isto acontece porque os atos divinos de refinar nossa língua e tudo o que expressamos faz com que enxerguemos o melhor que há nos outros, possibilitando a “entrada” de D´us nos relacionamentos que travamos. Isto se caracteriza num crescimento vertiginoso do amor, respeito e compreensão entre as pessoas, o que automaticamente as eleva, e possibilita cada vez mais ao ser humano grande controle sobre seus impulsos e a superação dos defeitos. Isto por si só é grande “Mercavá” (Carruagem Divina), que desvela todos os véus que nos impedem de enxergar a beleza e perfeição deste mundo que D´us criou para nós.

Finalmente, o ser humano sempre deve buscar pronunciar “Lashón Tov”, ou boas palavras porque é um mecanismo possível de realizar por qualquer ser humano em sua tarefa de se elevar. Através deste hábito, mesmo quando precisamos repreender alguém, a pessoa sente a doçura do que é dito e a verdadeira Kavanná em contribuir com a sua melhora, seguindo a ética determinada pelos grandes sábios, sempre em particular, cara a cara, entre as duas pessoas envolvidas. Mas não só neste caso, as palavras positivas também podem servir no nosso trato com doentes, com famintos e os pobres, pois o Talmud assim nos diz: “Aquele que doa ao pobre recebe seis berachot (bênçãos), enquanto que aquele que lhe dá atenção e o anima com boas palavras recebe 11″. Isto nos leva a entender, que pelo Lashón Tov,  nos tornamos um meio de transmitir a vontade do Criador.

PRÁTICAS CABALÍSTICAS:

Em nossa vivência, nos grupos de estudo, desenvolvemos e utilizamos inúmeras práticas que lidam com esta situação. O Hitbodedut cabalístico, permite que a pessoa acesse a essência de seu ser, rompendo com os chamados “gargalos” de comunicação interna. Há  Tehilim (Salmos) específicos que quando recitados com a Kavanná precisa, trazem efeitos maravilhosos. Além disso, há caminhos mais profundos, através dos ensinamentos dos grandes Chafetz Chaim e Rabi Nacham de Breslev (Ambos de abençoada memória), que deixaram práticas extremamente valiosas para eliminar os males da Lashón Hará, tanto para aqueles que proferiram, quando àqueles que foram alvo.


Mas antes disso, há uma sugestão inicial: experimente ficar um dia sem falar mal dos outros, assim como não dar atenção ao que as pessoas comentam de mal sobre os outros. Após este primeiro dia, vá aumentando gradativamente em horas e dias, até que você vai perceber a imensa limpeza interior que isto causa e jamais voltará aos mexericos, nem sentirá nada, caso seja vítima deles 🙂

Agradeço aqui todo o carinho de nossos leitores!

Rafael Chiconeli

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